Publicado por: pongpesca | 2010/03/31

Reportagem – Os pescadores mortos no mar: O mar estava à nossa espera, o desgraçado

Em três meses morreram 13 pescadores em Portugal Em três meses morreram 13 pescadores em Portugal (Enric Vives-Rubio).
“”Estava uma noite calma e mar chão. Mas ele estava ali à nossa espera, o desgraçado.” Ali era a foz do rio Minho, frente à praia chique do Moledo, às portas de Caminha. E ele era o mar choco, inocente, subitamente odioso, que em três segundos levou o Alfredo, o Rui e o Manuel. António Alonso só pensa nos três irmãos, o primeiro de sangue e os outros de sempre, que o desgraçado sacrificou sabe-se lá porquê.

Já lá vão duas semanas, mas António Alonso, salvo por um triz, com as costelas partidas, cheio de dores, treme e soluça. É a outra face da força indomável com que se bateu, corpo-a-corpo, durante duas horas, contra as vagas assassinas e o frio paralisante da noite de 3 de Março. Agarrado a umas tábuas e a outro sobrevivente, Vítor Santos, cunhado do Rui e do Alfredo, também eles “irmãos de sangue” um do outro, António resistiu a tudo para não faltar aos camaradas. “Se soubesse que eles não se salvavam, tinha deixado de lutar, antes queria ter ido com eles.”

O mar, nas palavras dos que nele ganham o pão, é a luz e a escuridão, a promessa e a desilusão. Ele abraça e escorraça, ele ama e atraiçoa. É Deus e Diabo. Desde sempre e ainda agora. “Cristo andou em cima das águas para mostrar que o bem era superior ao mal. E o mal era o mar”, acredita Vítor Santos.

Neste Inverno, mortífero como há décadas não se via, foi o danado que se sobrepôs a todas as outras visões que habitam as comunidades piscatórias do litoral português. Em três meses, Alfredo, Rui, Manuel, João, António, Amâncio, Gilberto, Basílio, Amândio, José, Manuel, Fernando e José somaram-se à lista interminável das suas vítimas.

Um balanço, neste caso apenas de pescadores profissionais, feito de 13 vidas tragadas pelas ondas entre Caminha e Setúbal, passando pela Areosa e Castelo do Neiva, junto a Viana do Castelo, e pela Areia Branca, perto de Peniche. Treze homens diferentes, mas todos com histórias semelhantes, muitas lágrimas e sustos, naufrágios próprios ou alheios, uns a acabarem bem, outros em tragédia, vidas construídas no respeito e na desconfiança do mar. Todos sem alternativa, ou incapazes de lhe virar as costas. E uma outra coisa em comum: todos adoravam o mar, mas nenhum lá queria os filhos.

Dir-se-ia que já foi muito pior, nos verdes anos de quase todos eles, no tempo dos seus pais, no tempo dos seus avós. E não seria preciso evocar a mais horrível de todas as desgraças vividas nos mares portugueses em todo o século passado: quatro das 103 traineiras que saíram de Leixões na tarde de 1 de Dezembro de 1947 foram ao fundo, apanhadas por rajadas ciclónicas. Morreram 152 pescadores, que deixaram 71 viúvas e 152 órfãos.

A verdade, porém, é que até Dezembro de 2009 registou-se uma única vítima, tal como em 2008, e na soma dos últimos seis anos não se vai além das 30 mortes. E também é verdade que nos mares de hoje há fatos de trabalho insufláveis, GPS e outras tecnologias que salvam vidas. Falta é saber se estão ao alcance de homens como Alfredo e os seus companheiros de infortúnio: ao alcance dos seus bolsos, cultura e hábitos enraizados.

Caminha
Alfredo, Rui e Manuel

Desde Novembro, a Vimar ainda não tinha saído para o largo mais do que três semanas. E para quem anda na pesca artesanal os subsídios de inactividade são quase uma miragem. Na madrugada de 3 de Março, visto o céu, o mar e a Internet, que a todos dá o estado do tempo, de norte a sul, os cinco amigos partem para a faina com a barra aberta e o mar calado, lembra Vítor Santos.

Alfredo Alonso (48 anos e duas filhas adultas) e António Alonso, o mestre (47 anos, um filho de 12 e uma filha maior), são irmãos e donos da traineira de dez metros. Ambos cresceram nela, que já era do pai e tinha sido palco da morte do “falecido Lopes”, há uns quarenta anos.

Rui Vasconcelos (45 anos, uma filha e um filho maior que se livrou do mar) e Manuel Vasconcelos (46 anos e uma menina de 14 anos) também são irmãos e começaram com o pai, ainda crianças, na Irmãos Unidos. Vítor Santos, 59 anos, cunhado dos Vasconcelos, três filhos, nenhum dos quais na pesca, é o único que chegou tarde às traineiras, depois de 30 anos em França. Foi para lá em miúdo e foi lá que aprendeu e praticou as artes do ferro, da serralharia à caldeiraria, que acumula com as do mar.

“Toda a gente tinha inveja da minha equipa de trabalho. Éramos todos irmãos a sério”, conta, inconsolável, o mestre António Alonso. “O mar estava choco como o rio”, lembra Vítor. Mas mesmo assim ainda falaram por rádio para dois barcos de Caminha que já tinham passado a barra. “Estava tudo bem. Não vimos mar, mas, quando lá chegámos, à altura da ilha da Ínsua, ele estava à nossa espera, tinha-nos enganado. Foram cinco ondaços de seguida. Em geral, o sétimo é o maior, mas este quarto atirou-nos ao fundo.”

A força da vaga tremenda fez voar a casa do leme com o mestre dentro. “O Rui, o Manuel e o Alfredo foram cuspidos e eu atirei-me em direcção ao António, agarrando-me a duas tábuas e a uma bóia. Depois agarrou-se ele, segurámo-nos os dois e nunca mais vimos os outros. Andámos duas horas na água gelada, primeiro empurrados pelo rio acima, do inferno para o paraíso, depois novamente para o inferno, levados pela vazante”, descreve Vítor, calmo e seguro.

Valeu-lhes o Salvador Passos, de 61 anos, que recebeu um alerta dos camaradas que já andavam no mar e tinham deixado de ver as luzes da Vimar. Ia sair às cinco da manhã com dois irmãos e um filho e largou a toda a velocidade 15 minutos antes. “Foi o quarto de hora que nos salvou, estávamos quase a apanhar com o mar. Havia luar, nós berregámos e eles viram-nos com os focos.”

O corpo de Manuel repousava ao princípio da manhã nas areias do Camarido, entre Moledo e Caminha. Rui e Alfredo nunca mais apareceram. Vítor ainda vai todos os dias acender “um velão” na praia do Moledo, a seis quilómetros da sede do concelho. António, derreado pelas dores, atordoado pelas noites de insónia e ajudado pela mulher, vai lá pelo menos três vezes por dia.

Vítor Santos tem dúvidas, o mar é um amor tardio, um entre outros, não sabe se lá vai voltar. António não pensa noutra coisa, apesar da família, apesar de tudo. “Eu adoro o mar. Tenho de viver com o mar. Tenho de ir para o mar. Estão lá os meus irmãos.”

Vítor também não os esquece e muito menos que podiam estar todos vivos. “Bastava fazer ali um paredão com uns 250 metros, que até ficava debaixo de água na praia-mar.” Evitava o assoreamento da barra – que se repete e agrava todos os invernos desde que as barragens espanholas cortaram o caudal do Minho – e “o mar partia no paredão, em vez de partir os barcos”. O antigo emigrante, que não pára de agradecer a todos quantos ajudaram nas buscas dos seus camaradas, assegura que a obra “não custava nada” e punha a salvo os cerca de 70 profissionais que ainda vão ao mar em Caminha. O problema, diz com insistência, é que “os pescadores são a classe mais maltratada que há em Portugal”.

Areosa
João e António

Nos recifes do Porto da Vinha, a umas centenas de metros da igreja da Areosa e a três ou quatro quilómetros de Viana do Castelo, os copos de plástico dos velões e os restos das coroas de flores lembram os irmãos João Rui e António Vale. O cruzeiro de pedra que ali está, ao fundo do caminho empedrado que atravessa a planície verde desde a igreja da aldeia, não lhes serviu de amparo ou protecção. A bateira de sete metros em que ambos andavam ao robalo, no meio do nevoeiro, foi atirada sem piedade contra os afloramentos rochosos, na madrugada de 18 de Fevereiro. Logo pela manhã, António foi encontrado perto do que restava dela, de bruços, sem vida. João Rui, o dono da pequena Patrik, continua desaparecido.

“Boa tarde, tia Laura. Era sempre assim. Deixava ali o carrinho dele e ia para o barco. Era tão educado que nem parecia um homem do mar.” Laura Vieira, vendedora de peixe no porto de pesca de Viana, lembra-se que naquele dia todos os pescadores saíram. “O azar deles dois foi serem apanhados por uma onda grande mesmo ali onde o mar rompe [na rebentação], que é onde está o robalo.”

João Rui tinha 56 anos, duas filhas, uma ainda em casa, um filho que trabalha nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e três netas. Morava na Rua de Nossa Senhora da Agonia, no modesto Bairro dos Pescadores construído pelo Estado Novo, e a mulher chama-se Maria da Agonia. António ia nos 50, era solteiro e vivia com a mãe noutra casa térrea do mesmo bairro, separado do porto apenas pelos estaleiros. Ambos foram ali criados, com o oceano à frente, o monte de Santa Luzia por trás, um pai que andou na faina do bacalhau, um irmão que também preferiu a construção naval ao mar e várias irmãs.

A família e os amigos juntaram-se numa missa por alma de ambos. Graciano, um deles, fez correr muitas lágrimas quando cantou na igreja o fado em que relata como há anos escapou à morte por não ter ido ao mar numa noite em que os companheiros naufragaram.

Desde aquele dia fatal, uma filha de João Rui vai todos os dias a Porto da Vinha atirar uma rosa ao mar.

Castelo do Neiva
Amâncio e Gilberto

A pequena embarcação dos irmãos Pereira foi encontrada na manhã de 16 de Dezembro, virada ao contrário, a cerca de dois mil metros da costa de Castelo do Neiva, meia dúzia de quilómetros a sul de Viana do Castelo. Amâncio e Gilberto, 30 e 32 anos, ambos solteiros, tinham sido jogados ao mar horas antes, por uma onda inesperada, defronte da aldeia em que nasceram.

Tinham saído a meio da noite como a maior parte dos quase cem homens que ali apanham polvo, e o que mais aparece, em três dezenas de bateiras de cores fortes e nomes santos. “O mar estava bom, o vento era pouco quando partimos, estávamos lá quase todos”, recorda Manuel Arezes, 40 anos, vizinho dos irmãos que nunca mais voltaram. “Eram grandes companheiros. Davam-se bem com toda a gente.” Tanto um como o outro ainda andavam na escola e já iam à faina, como fizeram o pai, o avô e o bisavô, que as memórias velhas ainda lembrem. Experiência não lhes faltava.

A única explicação que se ouve na nesga de terra empedrada que faz as vezes de cais de atracação, junto à exígua lota e ao guincho rudimentar que põe as bateiras a salvo, é a da onda maior – tocada pelo vento que se levantara entretanto. “O aparelho pode ter pegado no fundo, ou então o peso dos covos fez inclinar a bateira quando eles estavam a alar, e a onda virou-os.”

Por entre os cascos pintados com os nomes de Filho de Deus, Coração de Jesus, Nossa Senhora da Bonança, Jesus Cristo, Senhora da Boa Sorte, ou dos profanos Rui Miguel e Tiago André, Manuel Arezes fala das artes que partilha, mais coisa menos coisa, com muitas centenas de homens ao longo da costa. “Os covos são aquelas armações de ferro e rede que usamos com o isco para apanhar o polvo. Vão agarradas a um cabo que fica no mar e depois são puxadas para dentro da bateira pelo alador [um dispositivo de enrolar ligado a um motor]. Viramos os covos para tirar o peixe e depois largamo-los outra vez.”

Andavam nisto Amâncio e Gilberto, a baloiçar em cima da sua Praia do Minho, com os seus sorrisos magníficos – podem ser vistos no casamento da irmã Vera em http://www.youtube.com/watch v=WgdOxZTvFcs -, quando tudo acabou.

Antes deles, conta Manuel Pereira, um pescador de 48 anos primo dos desaparecidos, já há 25 anos que não morria ninguém no mar de Castelo do Neiva. Mas mesmo assim são cada vez menos os que o escolhem como parceiro para a vida. “Quando me casei, um trolha ganhava 400 escudos (dois euros) por dia e eu pagava mil escudos (cinco euros) ao tripulante que ia comigo. Agora, o trolha ganha 40 ou 50 euros e o tripulante arrisca-se a ficar pelos cinco. Assim quem é que quer ir para o mar?”

Manuel Pereira explica que o produto da venda do polvo e do peixe é repartido em três partes: uma para a bateira, outra para o dono e a terceira para o tripulante. “Mas, com o polvo a dois ou três euros o quilo, o que é que isto dá?” Por isso e pelo resto, o Maria da Fé está ali parado há mês e meio sem arranjar tripulante. E Gabriel, 23 anos, o irmão mais novo de Amâncio e Gilberto, ganha a vida em terra, num centro comercial do Porto.

Manuel Pereira também fez tudo o que pôde para que o filho não lhe seguisse as pisadas, mas foi em vão. “Quando ele me disse “vou para o mar”, foi como se me dessem um tiro.”

Ribamar
Manuel, Basílio, José e Amândio

Mais mortífero do que todos os outros deste Inverno foi o naufrágio do Fábio e João, a 18 de Fevereiro, ao largo da praia da Areia Branca, perto de Peniche. Quatro homens, todos com décadas de pesca e muita experiência de mares longínquos, foram levados para o fundo com a moderna embarcação em que trabalhavam.

Os corpos de dois deles, Basílio Fonseca, 55 anos, e Amândio Pinto, 42, apareceram semanas depois nas redes de dois arrastões. Os outros, Manuel Silvério, 48 anos, e José Martinho Antunes, 55 anos, permanecem desaparecidos. O Fábio e João, com os seus quase dez metros, construído há 12 anos em fibra de vidro, continua a 57 metros de profundidade, onde foi vistoriado pelos mergulhadores da Armada fez ontem 15 dias. “O mar estava bom naquela noite. Fez esta falsidade sem ninguém esperar. Começou-se a levantar e levou-os.” Herófilo Rato, cunhado de José Martinho, com quem partilhou muitos anos de trabalho nas costas da Mauritânia, não estava lá, mas é como se estivesse. Para ele, as razões deste desastre estão à vista, tal como estão as de todos os outros, para os que as viveram de perto: “O mar é traiçoeiro.” E esta explicação singela pode até nem contrariar a observação do comandante do Porto de Peniche, segundo o qual os sistemas de emergência “não foram activados”.

Seja como for, as lágrimas voltaram a correr abundantemente em Ribamar, a terra de onde os quatro eram naturais e onde todos residiam, à excepção de José Martinho, que há anos se tinha mudado para a sede do concelho, a Lourinhã. Dali eram também as quatro vítimas do Amor de Filhos, há 16 anos, as sete do Arca de Deus, há 17, as nove do Altar de Deus, há perto de 30. E muitas outras que as memórias já confundem. Isto numa terra que dista dois quilómetros do mar e só tem um porto de pesca a mais de 20, em Peniche, mas possui há muito uma das maiores comunidades piscatórias do país, ainda com 200 a 300 pescadores.

Manuel Silvério era um dos que andavam na faina marítima desde os 15 anos. Trabalhou sempre por conta de outros, muitas vezes com os que o acompanharam na última viagem, e não fugia à regra. “O meu pai nunca me deixou ir para o mar. Costumava dizer que, no dia em que eu decidisse ir, dava-lhe o maior desgosto que podia dar”, conta Pedro, o filho mais velho, 25 anos, explicando que mar é aqui sinónimo de pesca. E tanto assim é que ele foi para o mar e o pai não teve um desgosto. Pedro é marinheiro da Armada desde os 19 anos. Além dele, Manuel tinha outro filho, com 16 anos, e uma filha com 23.

“Ele dizia que andava no mar porque não sabia fazer outra coisa e que o mar era bom era para os peixes, não para os homens”, recorda a mulher, Maria da Luz. Apesar de ter passado dez anos nas águas da Madeira e dos Açores, em viagens de duas a três semanas, nunca tinha tido um acidente. “Queria reformar-se daqui a seis anos, aos 55, mas foi tudo ao contrário.”

Tinha uma horta a que dedicava uma parte do tempo livre, era um sportinguista ferrenho, homem bem-disposto, e participava em todas as festas da vila. “Ainda neste Carnaval se mascarou de árabe, fazia parte do rancho folclórico, entrava nas marchas populares e ajudava nas festas de Outubro, organizadas pelo Centro Social e Cultural.” Os seus grandes amigos, assegura Maria da Luz, eram o Amândio e o Basílio. “Se sabiam que ele estava na fazenda, iam logo lá ter para o ajudar.”

Seguindo um velho hábito dos pescadores de Ribamar, Basílio Fonseca também se repartia entre a horta e o mar. Além do pai, que também foi pescador, tem três irmãos nessa vida, mas não precisou de afastar dela os filhos. Teve apenas duas filhas, 21 e 26 anos, e uma neta que ainda viu chegar quase aos três meses. “A Eva era a menina-dos-olhos dele”, relata a filha mais velha, Bruna. “A minha mãe odiava que ele fosse pescador, queria que ele trabalhasse em terra, só que ele adorava o mar.”

Mas havia coisas que não contava às filhas para não as preocupar, embora falasse delas ao genro. “Uma vez foi arrastado pelas redes e conseguiu safar-se cortando-as com uma navalha. Era uma pessoa muito corajosa e que fazia rir toda a gente. Aqui há uns três anos até entrou em duas ou três peças de teatro com um grupo da terra.”

Passou quase 25 anos a caminho da Mauritânia e de Marrocos e chegou a ir pescar ao Brasil. “Eram viagens de um mês e mais. Só há uns dez anos é que veio pescar para aqui, depois de ter também passado muito tempo nas costas do Algarve”, retoma Bruna.

Quando voltou, fez sociedade com Amândio e com Mateus Fonseca, um amigo que não andava a bordo, e compraram o Fábio e João. Para Bruna e para o marido, há uma coisa por explicar no naufrágio. “O barco tinha tido a vistoria há poucas semanas, mas a balsa insuflável que lá estava e se enche automaticamente em caso de acidente não abriu. Vê-se no filme feito pelos mergulhadores. Lá dentro havia comida para seis dias e se ela se tivesse aberto talvez se tivesse salvo.”

Mais afastado do dia-a-dia de Ribamar estava José Martinho. Tinha duas filhas já adultas, três netos, e vivia na Lourinhã com a mulher. Em casa dos pais eram cinco irmãs e três irmãos. Fernando é pescador em Ribamar e o outro fazia o mesmo até emigrar para os Estados Unidos da América. “No meu irmão, o que mais me revolta é que ele tinha uma vida boa, andava sempre em viagens, e não sobejou nada”, lamenta Fernando.

Segundo o cunhado Herófilo, que chegou a estar 17 dias preso na Mauritânia, por causa da pesca, e teve um primo morto no mar pelos guerrilheiros sarauis, Martinho “era um homem muito caseiro que sempre fez o dever dele”.

Andou muitos anos na Mauritânia e estava há ano e meio no Fábio e João. Ia reformar-se este ano. “A pesca era tudo para ele.”

Semelhante foi o percurso de Amândio, o mestre da embarcação e o mais novo dos quatro, pai de três filhos. Tal como Basílio, que partilhava com ele e com Mateus Fonseca a propriedade do Fábio e João, foi recolhido acidentalmente do fundo do mar por um arrastão. Basílio apareceu nas redes uma semana depois do naufrágio e Amândio foi apanhado, acaso ainda maior, por outro arrastão do seu sócio Mateus Fonseca.

Amândio, que nunca tinha tido acidentes no mar, conheceu de perto o naufrágio que mais abalou a vila nos anos 90 do século XX. Cinco das sete vítimas do Arca de Deus, desaparecidas com a embarcação ao largo do cabo Carvoeiro, eram familiares da mulher.

Setúbal
Fernando e José

No Bairro dos Pescadores, em Setúbal, a mãe de Fernando do Carmo está coberta de preto e chora. O corpo do filho de 42 anos, feitos na morgue no dia 15 de Fevereiro, apareceu na véspera nos areais da Caparica, na mesma zona em que o pesqueiro Delfim foi afundado pelas ondas, no meio de um temporal, a 8 do mesmo mês. Com ele seguiam, de volta a casa, José Gil, de 62 anos, e Pedro Nunes, de 25, o único que sobreviveu à derradeira viagem dos companheiros.

“O Fernando às vezes sentava-se aqui no sofá, quando não podia ir ao mar, e dizia: estou farto de andar para aqui, quero é ir para o mar.” Conceição do Carmo mostra “o sagrado coração de Jesus, o dr. Sousa Martins, a nossa senhora de Fátima, os retratinhos da menina todos estragados, a carteira, o relógio, o telemóvel, as coisinhas dele” – tudo o que lhe deram no tribunal. Fernando, conhecido como o Palhacinho, era o mais novo dos seus dois filhos pescadores.

O marido, José, 70 anos, também nunca saiu do mar, incluindo oito anos na pesca do bacalhau, e ainda agora vai no bote, de madrugada, ao choco do estuário do Sado. “Estávamos bem arranjados se vivêssemos só dos 70 contos (350 euros) da reforma dele. Nem dava para os remédios.” O pai de Conceição foi outro que fez vida no bacalhau. “Morreu na casa de banho da lota, há quarenta e tal anos, horas depois de chegar da Terra Nova. Vinha com o meu marido e com o meu sogro, Tínhamos casado há pouco.”

O bairro de prédios brancos e encardidos, de três andares, vem dos anos 70, fica no alto de uma encosta, com a baía ao longe, e as ruas têm os nomes de todos os santos das devoções marítimas. Conceição vive ali desde 1978. Já lá estava há 28 anos quando Fernando foi para o mar, logo para Marrocos, com 14 anos por fazer. “Ainda recebia o abono de família.” Andou a caminhar para lá quase 20 anos e chegou a naufragar no Estrela Matutina, de Sines, junto à costa africana. “O farol marroquino avariou-se e eles bateram nas rochas. Andaram numa balsa durante dois dias até serem salvos.”

Quando deixou de ir para Marrocos, há nove anos, entrou para o Delfim. “Foi para o lugar de um rapaz que morreu com uma pancada da ganchorra [utensílio de ferro usado na apanha da amêijoa] na cabeça e não havia quem o quisesse substituir. Ninguém me tira da ideia que ele também levou uma pancada porque nadava muito bem.” Para a mãe, Palhacinho não tinha um só defeito. “Nunca faltou um dia ao trabalho”, “não bebia”, “não era rapaz para discotecas”, “o patrão adorava-o”, “cumpria os deveres dele, se era para votar, votava”.

Fernando vivia sozinho desde que se divorciou há quatro anos, tinha uma filha de dez que “vinha muito ao pai”, e estava a acabar de reconstruir “uma moradia” que comprou junto ao bairro dos pais. “Na minha família é tudo pescador. É uma vida triste. Os mais velhos ficam porque não há outra coisa. E aos desempregados o que vale aqui é o choco e as amêijoas.”

José Gil, de alcunha o Primo, ia-se salvando. Mas a sorte não o acompanhou até ao fim. Morreu quase nos braços do jovem companheiro, Pedro Nunes de nome, Sargueta para os amigos. Estava há mais de uma hora em cima de uma porta que flutuava, com Pedro ali ao lado, agarrado a uma bóia. “Quando deixou de falar comigo, vi-o a espumar pela boca”, contou Sargueta aos jornalistas na altura. Dali a nada chegou o helicóptero da Marinha que os recolheu, mas foi tarde de mais para o Primo.

O filho Daniel, 25 anos, ainda se lembra que quando era adolescente o pai fazia tudo para o afastar do mar. “Eu tentava que ele me levasse, mas ele não queria. Achava que era uma vida muito dura e cheia de perigos. Queria que o mar acabasse nele.” Ao contrário de muitos companheiros, José Gil não se fez homem a pescar. Nasceu em Olhão, mas cedo foi para Vila Real de Santo António, onde trabalhou numa tipografia 20 anos, até aos 32, com um intervalo para a tropa em Angola. Só então se virou para o mar, mudando-se dois anos depois para Setúbal, “devido à falta de peixe”. No Algarve deixou a primeira mulher, uma filha, que emigrou para Itália e sempre manteve contacto com ele, e um filho.

Já em Setúbal casou novamente e teve mais um filho e uma filha, de quem tinha um neto, o Bruno, de quatro anos. Vivia com a mulher, o Daniel e o Bruno, “que era tudo para ele”. Chegou a ter um barco que se afundou durante uma tempestade no porto de Setúbal. Depois ainda teve outro de sociedade, mas desistiu, diz o filho.

No Delfim, na apanha de conquilhas e navalhas, estava há pouco tempo, depois de ter passado por meia dúzia de barcos no prazo de um ano. “Todos os dias de manhã ia para a doca, trabalhasse ou não trabalhasse. Já tinha apanhado vários sustos e uma vez o barco foi ao fundo. Ele e os dois companheiros salvaram-se, mas doutra vez viu cair à água e morrer um colega que se sentiu.” A alcunha de Primo, julga Daniel, “veio-lhe de ser muito prestativo”, e puseram-lha ainda Algarve.

Alheio ao mundo da pesca, Daniel tem a pior das opiniões de muitos dos patrões para quem o pai trabalhou. “Andou em muitos barcos em que não lhe pagavam ou pagavam em prestações. No mar, os patrões são uns piores que os outros.” Para ele, não é vida. “Nunca se sabe o que se pesca, nem o que se ganha.”

Reportagem publicada na edição da revista Pública de 28 de Março de 2010″

Fonte: Público – 30 de Março de 2010

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