Publicado por: pongpesca | 2009/10/12

As novas redes de Pescadores. Guardiães do Universo Marinho.

Mar de Lira_logorecopades-logo

“Cruzando os oceanos, fomos ao encontro dos pescadores tradicionais que passaram a gerir de forma responsável os recursos pesqueiros, que aplicam métodos de pesca que respeitam o ambiente marinho e tomaram nas suas próprias mãos a viabilidade social e económica das suas comunidades e das gerações vindouras. Navegando ao seu lado, vemos que, se no passado eram meros recolectores, hoje são pescadores sustentáveis, gestores ambientais e guardiães do universo marinho.

AS NOVAS REDES DE PESCADORES
Em 2004, membros de quatro comunidades piscatórias artesanais de diferentes países uniram-se para uma iniciativa inédita: a geminação das suas comunidades, criando a Rede de Comunidades Piscatórias Artesanais para o Desenvolvimento Sustentável (RECOPADES). Preocupados com a situação de vulnerabilidade dos recursos da pesca e das populações humanas que dependem deles, a Confraria de Pesca de Lira (Galiza, Espanha), as Associações de pescadores artesanais de Puerto Madryn (Patagónia, Argentina) e de Laguna de Rocha (Rocha, Uruguai) e a Confraria de Pescadores de Restiga (El Hierro, Canárias, Espanha), decidiram articular as suas próprias experiências e coordenar esforços. Graças a uma colaboração em torno de interesses e problemas comuns, estas associações de pescadores deixaram para trás séculos de confronto e competição.

OS PERIGOS QUE VIVIAM
A pesca é um sector de vital importância para a economia de algumas regiões e é o sustento de milhões de famílias. Mas, em diferentes latitudes do mundo, como na Terranova, Chile, Argentina, Espanha, ou Índia, muitos stocks de peixes entraram em colapso ou ficaram em situação crítica, pelos níveis de sobre-exploração. Muitas das comunidades piscatórias tradicionais estavam em perigo, principalmente por causa de uma estratégia de maximização das capturas da pesca industrial, mas também pela actuação negligente de empresas pesqueiras e pescadores na exploração dos recursos. Por outro lado, o aumento acelerado da procura de produtos do mar, e a pressão do mercado, cada vez mais global, actuou sobre o comportamento produtivo dos pescadores artesanais, convertendo-os em meros agentes extractivos.
A falta de informação sobre as condições do mercado, uma procura instável e a actuação especuladora dos intermediários, impediam também os pescadores de gerir de maneira eficiente e sustentável as pescarias para maximizar o seu valor económico. A instabilidade do rendimento era grande e as economias familiares destas comunidades sempre foram muito frágeis e pouco diversificadas.
E se o problema tinha múltiplas dimensões, tanto de ordem ambiental, como alimentar, económica, social e cultural, as respostas começaram a chegar das próprias comunidades de pescadores que, coordenadas através de redes internacionais, encontraram soluções responsáveis e sustentáveis, aproveitando as experiências positivas dos seus integrantes.

O MODELO LONXANET
Antonio García Allut, antropólogo de pesca da Universidade de A Coruña e presidente da Fundação Lonxanet, foi o grande impulsionador de RECOPADES e criador de um novo modelo de pesca tradicional. Ao transformar as condições sociais, económicas e ambientais da pesca tradicional, a sua proposta deu nova viabilidade à comunidade de pescadores de Lira e está a ser replicada em comunidades de pesca na Europa, Norte de África e América Latina.
Em primeiro lugar, com a criação de um sistema de comercialização directa do peixe, a Lonxanet passou a distribuir para restaurantes e particulares de toda a Espanha. Ao conhecer de antemão a procura e os preços de venda, e por ser um canal de venda directa, a Lonxanet paga os produtos da pesca artesanal a um preço superior ao dos intermediários. As organizações de pescadores recebem ainda 3% pelos produtos vendidos pela Lonxanet. Sendo accionistas, os pescadores recebem igualmente uma parte dos lucros da empresa. Adicionalmente, 50% dos lucros totais da empresa são investidos em projectos sociais através da Fundação Lonxanet. Envolvendo directamente as comunidades, criou-se assim um modelo que garante uma vida digna aos pescadores tradicionais e está a ajudar a resolver a precariedade das economias dos pescadores artesanais, convertendo-os em protagonistas do seu próprio destino e em gestores do património marinho.

Por outro lado, a nova consciência do pescador artesanal, mais preocupado em garantir a sustentabilidade dos recursos de que depende o seu futuro, e a colaboração entre as associações, favoreceram a criação de uma Área Marítima Protegida de Interesse Pesqueiro, definida pelos próprios pescadores. Esta reserva está a permitir a recuperação dos recursos marinhos da Área e das zonas adjacentes. E já foi considerada pela administração regional galega como um exemplo de boas práticas a seguir por associações de pescadores da região.
Para diversificar os rendimentos familiares e atingir uma maior estabilidade económica das comunidades de pesca tradicional, foram ainda lançados projectos relacionados com o turismo (casas rurais e percursos em barco pelas zonas de pesca) e com a educação (milhares de crianças e jovens participaram em oficinas e visitas no âmbito do projecto “Mar de Lira”, com gestão dos próprios pescadores). Estas iniciativas conseguiram aproximar a sociedade da vida do pescador, demonstrando a importância da profissão para a sustentabilidade económica e ambiental daquela zona de pesca. Estes projectos foram também considerados pela administração pública galega como um instrumento útil para apoiar as associações de pescadores e as suas comunidades e a União Europeia elegeu-os como modelos de boas práticas.

RECOPADES, de Espanha à Argentina
A Confraria de pescadores de Lira, na Galiza, é portanto uma das referentes da rede em Espanha, assim como a Confraria de Pescadores da Restinga, nas Canárias, que, liderada por Fernando Gutiérrez, pretende contribuir, através do sector pesqueiro, para que El Hierro seja uma ilha de economia sustentável, dentro do arquipélago de turismo massivo que é grande parte das Canárias.
Também os pescadores de Puerto Madryn (Patagónia, Argentina) e de Laguna de Rocha (Uruguai) procuram soluções para problemáticas semelhantes à espanhola, mas à escala do contexto económico do Cone Sul, onde os pescadores não recebem mais do que 70 US$ por mês e exercem uma actividade socialmente desprestigiada e que frequentemente incumpre a legislação oficial. Ambas comunidades apostam numa gestão dos recursos que assegure a sustentabilidade das pescarias, dando visibilidade e expressão à pesca artesanal na região.
Aliás, o novo modelo de pesca tradicional aplicado pelos pescadores de Lira pode ser um exemplo tanto para comunidades pesqueiras tradicionais como agrícolas de muitos pontos do mundo, já que partilham desafios, realidades e problemáticas muito semelhantes. Cada zona terá que adaptar as diferentes iniciativas ao seu contexto, mas os elementos fundamentais do modelo podem ser aplicáveis à abordagem de um problema global a partir de uma perspectiva local. É o que estão a demonstrar as comunidades de pesca tradicional que integram a rede RECOPADES. A rede, além de replicar um modelo de sucesso, está a criar nos pescadores a consciência de que os desafios e problemas a que se enfrentam são globais.”

Fonte: Rosa Matos – Revista IM


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