Publicado por: pongpesca | 2009/11/19

Nem tudo o que vem à rede é sustentável

Logotipo do Projecto Territórios Sustentaveis

“No Natal come-se bacalhau, no Verão faz-se a sardinha assada, o marisco serve sempre para comemorar e o atum, dentro de uma lata, está sempre pronto a ser servido. O peixe é um alimento muito comum na cozinha dos portugueses. A proximidade do mar, a elevada área de costa, a grande tradição pesqueira e os hábitos culinários, são algumas das razões que levam Portugal a ser o país da Europa que mais peixe consome. Cinquenta e seis quilos é o valor médio de peixe consumido por cada português apenas no ano de 2005. A actividade registou em 2007 capturas anuais de 161 mil toneladas e envolve mais de 17 mil pescadores (INE, 2008). Esta posição confere a Portugal uma elevada responsabilidade na exploração dos recursos marinhos. No entanto a pesca tem alterado dramaticamente a estrutura de muitas populações de peixe, havendo uma taxa crescente do declínio dos recursos marinhos e da biodiversidade associada a estes.

As opções dos consumidores são uma responsabilidade individual, que não deixa de ter consequências ao nível de toda a cadeia de exploração dos recursos. Para que o consumo seja baseado em critérios de sustentabilidade, é essencial disponibilizar e fornecer informação sobre a produção e o processamento desses alimentos. A informação está muitas vezes associada à certificação. Nesse sentido têm surgido várias entidades dedicadas à classificação da sustentabilidade dos produtos marinhos, promovendo cada vez mais um processo de rotulagem transparente. A entidade mais reconhecida a nível mundial é a Marine Stewardship Council . Certifica sobretudo o método de captura do peixe, mas também os requisitos ambientais da produção em aquacultura. Existem também vários guias de consumo de peixe desenvolvidos por entidades ligadas à protecção e à conservação dos oceanos. São guias dos produtos do mar que utilizam a informação disponível sobre cada recurso para definirem critérios de classificação em relação à sustentabilidade (Marine Conservation Society; Seafood Watch – Monterey Bay Aquarium; Fish Source).

Não existe ainda um guia específico para Portugal e a certificação está pouco acessível nas cadeias de supermercado. Então o que fazer quando queremos comer peixe de uma forma sustentável? Há vários critérios que podem ser adoptados, são simples e muitos deles transversais aos outros alimentos.

A acção mais importante para a sustentabilidade é consumir menos, neste caso ingerir menos peixe. Tal como acontece em relação à carne, as quantidades actualmente ingeridas de proteína animal pelos cidadãos dos países desenvolvidos, são muito superiores às necessidades nutritivas dos nossos organismos.

O peixe tem ainda uma particularidade: o peixe mais sustentável é muitas vezes o mais barato. É tão saboroso e oferece os requisitos nutritivos da mesma forma que as outras espécies. Espécies como a sardinha, o carapau e a cavala são normalmente mais baratas e capturadas em maior quantidade. Estas espécies estão na base da cadeia trófica marinha, o que significa que têm um ciclo de vida curto, maior capacidade de reprodução e alimentam-se de plâncton. Em contraposição temos as espécies piscívoras, que se alimentam de outros peixes, como por exemplo o atum, o bacalhau ou o salmão, e que por isso têm um ciclo de vida mais complexo e estão dependentes de um maior número de factores para subsistirem.

Outro factor que caracteriza Portugal é também a elevada importância da frota artesanal. O acesso ao peixe fresco é fácil e comum, e está associado a um menor prejuízo ambiental porque exclui o custo associado ao processamento e à distribuição. A manutenção da pesca artesanal é por isso essencial para a preservação dos recursos, tem menor impacto no ecossistema, confere valor económico a um maior número de pessoas e permite a subsistência das comunidades costeiras que mantém a tradição cultural.

Na bancada do peixe há sempre douradas e os robalos frescos de aquacultura. Estes produtos apresentam valores de compra bastante competitivos. Apesar do peixe proveniente da aquacultura estar a ser cada vez mais visto como uma solução para a manutenção dos recursos marinhos, esta actividade tem ainda elevados custos ambientais associados à concentração de matéria orgânica, dependência dos combustíveis fósseis e utilização de antibióticos. Mas o maior problema é a baixa eficiência da produção de peixe em aquacultura e a sua dependência de peixe selvagem: são necessárias 5 toneladas de peixe para produzir 1 tonelada de peixe de aquacultura.

A melhor atitude a seguir é igual a todos os outros produtos que consumimos: procurar consumir os produtos menos processados e mais próximos do ponto de produção; procurar mais informação sobre a espécie, o que é, de onde vem e como foi capturada; e reavaliar constantemente os critérios adoptados. Não é necessário deixar de comer peixe para salvar os oceanos. O mais importante é reduzir, seleccionar e comer simplesmente o que o mar nos dá.

Cheila Almeida – LPN 

Bibliografia consultada:
Blythman, J. 1998. The food we eat. Penguin Books. 369p.
Clover, C. 2006. The end of the line. University of California Press. 358p.
Instituto Nacional de Estatística 2008. Estatísticas da Pesca. 5p. www.ine.pt
Seafood Choices Alliance 2007. The European Marketplace for Sustainable Seafood. 31p.
Worm, B.; Barbier, E.; Beaumont, N.; Duffy, J.; Folke, C.; Halpern, B.; Jackson, J.; Lotze, H.; Micheli, F.; Palumbi, S.; Sala, E.; Selkoe, K.; Stachowicz, J.; Watson, R. 2006. Impacts of Biodiversity Loss on Ocean Ecosystem Services. 314: 789–790. ”

Fonte: Newsletter nº8 do Projecto “Territórios Sustentáveis: Consumo Responsável em Organizações privadas, públicas e 3º sector”


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