Publicado por: pongpesca | 2009/12/02

Pescaria ecológica

“Cerâmica substitui chumbadas, com a vantagem de não poluir as águas dos rios e reservatórios

   

Cada pescador perde, por pescaria, entre 150 a 300 gramas de peso de chumbo (chumbada). São pelo menos 40 toneladas por temporada, acumulando- se nos rios, só na região do Pantanal Matogrossense, segundo informações de órgãos estaduais ligados à preservação ambiental. Um envenenamento a conta-gotas, do meio ambiente e do homem. O chumbo, como todo metal pesado, é poluente, bioacumulativo e se degrada muito lentamente em ambientes naturais. Quer dizer, seus efeitos nocivos persistem durante décadas, contaminando os recursos hídricos e o solo.

Como não é metabolizado, o chumbo afeta especialmente os animais do topo da cadeia alimentar, entre os quais está o homem. O metal pode ser ingerido junto com água por pequenos peixes, acumulandose na carne e vísceras dos peixes predadores e dos carnívoros ou aves que deles se alimentam. Esse acúmulo exponencial, conforme se sobe ao topo da cadeia alimentar, é o que se costuma chamar de bioacumulação.
 
A presença de chumbo no organismo é comprovadamente carcinogênica (causa câncer), teratogênica (causa malformações estruturais no feto – baixo peso, disfunções metabólicas e biológicas), e tóxica para o sistema reprodutivo (causa disfunções sexuais, aborto e infertilidade). Problemas neurológicos, como a falta de concentração e dificuldade na fala, também estão relacionados com quantidades elevadas de chumbo no sangue. Os principais sintomas são desconforto intestinal, fortes dores abdominais, diarréia, perda de apetite, náuseas, vômitos e cãibras.
 
Em busca de uma alternativa de menor impacto, a pesquisa aplicada entrou na história e criou as “chumbadas ecológicas”: pesos cerâmicos com uma composição especial – 30% de alumina, 45% de sílica, 15% de ferro e 10% de cálcio – não poluente e de fácil degradação.
 
Na fabricação da chumbada cerâmica são utilizados materiais como a argila, a areia e o pó de pedra, tornando o produto biocompatível com o solo dos rios, lagos e lagoas. Por isso, as chumbadas cerâmicas são adequadas na substituição das tradicionais, feitas de chumbo.
 
O peso cerâmico – ou ‘chumbada’ cerâmica – deteriora- se depois de um ano e meio mergulhada na água. Os resíduos se reintegram ao solo por completo.
 
O estudo para seu desenvolvimento foi realizado no Laboratório Interdisciplinar de Eletroquímica e Cerâmica (LIEC), integrado por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos e do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara, no interior paulista. O produto já saiu do laboratório para as ruas e é fabricado em escala comercial pela Tecnicer, empresa instalada em São Carlos, São Paulo, que também é responsável pela distribuição no mercado.
 
Inicialmente havia a desvantagem do preço alto, que fazia o consumidor hesitar na hora de trocar o chumbo pela cerâmica. A diferença chegou a ser de 40%. Mas com a produção em escala o problema acabou: o custo de produção da cerâmica agora se igualou ao da chumbada tradicional. O tamanho das peças ainda é um pouco maior, devido à diferença de densidade dos materiais.
 
A peça cerâmica é maior que a de chumbo. Mas não a ponto de impedir a utilização ou atrapalhar a pesca. Ao contrário, a cerâmica enrosca muito menos, justamente por ser maior e mais arredondada. A chumbada cerâmica de menor diâmetro, já disponível no mercado, tem 15 mm e pesa 5 gramas. A maior temm 33 mm e chega a 45 gramas.
 
O país tem e domina a tecnologia, mas faltam ainda a consciência e uma legislação mais eficaz contra a poluição por chumbo, sobretudo nos mananciais. A utilização do metal pesado é proibida por lei em países como o Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia e Inglaterra, sendo que, neste último a proibição é de 1987.
 
No Canadá, a mesma medida entrou em vigor em 1997, ano em que se estima terem sido depositadas 500 toneladas de chumbadas no fundo dos rios e lagos, apenas por causa da pesca.
 
No Brasil, a Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio da Câmara Federal de Deputados, deixou escapar uma boa chance de livrar o meio ambiente de tal envenenamento.
 
Em dezembro de 2004, rejeitou o projeto de lei do Deputado Lobbe Neto, que proibia o uso de chumbo e seus derivados em materiais de pesca. O projeto deverá ser reapresentado, ainda na Câmara, para uma outra comissão.
 
“Perto de Cuiabá, Corumbá, Barra do Garça e outras grande cidades próximas de rios, já existe a profissão dos catadores de chumbo, pessoas que coletam chumbo perdido por pescadores para vender, sujeitando-se diariamente à contaminação”, conta Élson Longo, coordenador da pesquisa e diretor do LIEC.
 
“É uma questão de cidadania, esta proibição. O Pantanal, por exemplo, não é só uma reserva ecológica, mas um ecossistema importante, que abriga grandes estoques de peixes. Se poluído, vamos ter um rio Tietê. E a contaminação por chumbo é irreversível”. A ameaça não paira apenas sobre o Pantanal, a maior planície sazonalmente inundável da Terra.
 
O Brasil tem a maior rede hidrográfica do planeta, com cerca de 1,5 milhão de cursos d’água; 10% das espécies de peixes; a maior bacia de drenagem de água doce do mundo – a Amazônica -, além de vários rios que figuram entre os maiores do mundo, como o São Francisco, o Araguaia/Tocantins, o Negro e o Xingu. “Apenas 2,5% do total de água disponível no planeta é doce, fundamental para a nossa sobrevivência, sendo o restante impróprio para o consumo.
 
Mas a água acessível ao consumo humano, encontrada em rios, lagos e alguns reservatórios subterrâneos, soma apenas 0,3%, ou 100 mil km2. O Brasil tem 12% da concentração mundial de água doce, o que faz da preservação dessa água a prioridade do século”, continua o pesquisador. Se a fonte secar, a derrota não será apenas do meio ambiente.
 
Somente com a pesca, segundo dados do Programa Nacional de Desenvolvimento da Pesca Amadora (PNDPA), o Brasil movimenta US$ 700 milhões/ano no setor.”

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