Publicado por: pongpesca | 2009/12/15

Memórias dos Avieiros em Azinhaga

 FOLHA INFORMATIVA Nº 38/2009

Memórias dos Avieiros em Azinhaga

“Fugindo a Invernos rigorosos e ao mar alteroso a que chamavam Mar Cão que os impedia de pescar, homens e mulheres da Praia da Vieira de Leiria, desde finais do séc. XIX procuraram no Tejo o seu sustento.

Tendo encontrado no Tejo abundância de peixe, principalmente o Sável que abundava naquelas águas, estabeleceram-se gradualmente nas suas margens e afluentes. Começaram então por vir no Inverno para o Tejo pescar o Sável, a Saboga e outras espécies de água doce. Terminado o Inverno regressavam à Praia da Vieira onde voltavam a pescar no mar. Durante décadas esta gente dividiu-se entre a arte xávega da Sardinha e arte varina do Sável. Deu-se assim início a uma migração sazonal de pescadores que por serem da Praia da Vieira foram chamados Avieiros ou Ciganos do Tejo.

Pouco a pouco, muitos desses pescadores passaram a residir permanentemente na Borda-d’água deixando de regressar à sua terra natal. Assim, nasceram pequenas comunidades de pescadores espalhadas ao longo do Tejo, pelo menos desde a Chamusca até à Póvoa de Santa Iria.

As famílias

Em Azinhaga instalaram-se nas Moitas três famílias: os Narcisos, os Lobos e os Jaquetas. Mais tarde e pelo casamento, juntaram-se outras famílias como os Fernandes, os Moreira, os Petinga, os Sequeira, os Sousa, os Tocha, os Toito, os Tomáz, entre outros que se fixaram nas margens do Almonda junto ao Porto Cação.

As casas

Viviam em barracas de madeira e canas, cobertas com palhas ou caniços e construídas em cima de estacas (a madeira utilizada era resgatada nas enchentes, pois dinheiro para a comprar não existia). As estacas suportavam as barracas e eram a sua salvação contra as cheias do rio.

A pesca

Aquando da companha do Sável que começava em Janeiro e ia até Junho estas gentes estavam aos quinze dias sem vir a casa, assim sendo a bateira era o seu lar e o seu meio de transporte. Na proa da bateira era colocado um toldo de serapilheira untada com pês negro para o impermeabilizar para assim, servir de abrigo contra as intempéries. Era aqui que toda a família dormia, depois da emparadeira mais ou menos a meio, era colocado um monte de areia para que pudessem fazer lume, servia de cozinha, a parte da ré, era a oficina da pesca e onde se guardavam as redes.

As bateiras são belos barcos que têm a proa e a ré em bico e viradas para o céu, medindo entre quatro metros e meio a sete metros. Por fora, são pintadas a pês negro e por dentro com cores vivas e alegres. A vantagem em terem a proa e a ré em bico é o manuseamento do próprio barco.

Na faina pescava-se de noite, a mulher remava, ele largava as redes ou ia à vara como compete ao homem. Pela manhã a mulher ou uma das filhas ia vender o pescado na própria aldeia, no Pombalinho na Golegã, e até mesmo em Torres Novas ou no Entroncamento onde montava uma banca no exterior do mercado.

As redes utilizadas na faina eram designadas de Varinas, Savaras, Sabogaras, Tremalhos, Boterões, Galrichos, Narsas, Tarrafas, Tranquetes e Tesões.

Na altura do Sável toda a família funcionava como uma companha e nalguns casos chegavam a contratar pessoal da aldeia para esta faina, pois utilizavam as chamadas Varinas que eram redes de arrasto muito grandes.

O trajar

No vestir, os Avieiros continuaram a preservar usos e costumes da sua terra distante; elas usam saias compridas com muita roda ou então com pregas miúdas, preferindo as de cores garridas, ou então as de xadrez castanho-amarelo. Blusa ou casaco sempre de manga comprida e bastante garrido, com muitas rendas ou bordados e nunca dispensa o avental (também ele bastante rodado), a Avieira estima muito os com riscas largas ou então os de cor lisa e com muitos bordados, é este peça essencial quer seja no rio em casa ou em festas. Abrigavam-se do frio com xailes de lã. Nas pernas utilizavam os característicos canos de lã grossa. Geralmente andavam descalças, chinelas só em dias de festa. Utilizavam sempre lenço na cabeça quer fosse soqueixado, atado atrás, ou caído pelos ombros. Por cima do lenço a Avieira usava um chapelinho de veludo preto, onde pregava uma pena de pato de cabeça azul, e duas penas de galinha, uma pintada de mercúrio, outra de amarelo. Enfiavam as três penas numa pedra de colar onde davam um nó em forma de cruz. Era grande o anseio da mulher avieira em ter um cordão de ouro com algumas medalhas.

O homem Avieiro vestia ceroula e camisa aos quadrados, cinta preta à cintura e um barrete preto. Quando ia a alguma festa é que vestia calças e calçava tamancos.

Imagens de um nascimento

Soprava forte o vento sobre os salgueiros ali mesmo em frente ao Mouchão do Veiga e avistava-se uma luz trémula e longínqua lá dos lados da Chamusca. A tia Maria, prevendo que chegava a sua hora, não parava de remar, sentada e com uma enorme barriga ajudava o seu homem como podia para que se despachassem da safra. De quando em vez, gemia baixinho e dizia:

“Ah home mexe as unhas, d´hoje é quê na passo. Mexe-te quê quer que a comadre Loba me apare o cachopo…”

As crianças tanto podiam nascer em casa, como em qualquer lugar na margem do Tejo. Se nascessem durante uma companha a mulher Avieira só podia contar com o seu homem para a ajudar no trabalho de parto, teria que dar à luz ali mesmo dentro da bateira debaixo do toldo. Se nascessem na colónia tinham sempre por perto uma comadre ou outra Avieira que haveria de ajudar a deitar ao mundo outro descendente deste povo com costumes tão curiosos.

Irá esta criança crescer e brincar em conjunto com seus irmãos dentro do barco com o mesmo à-vontade como se em terra firme se encontrasse.

O casamento

No casamento, o Avieiro era raro cruzar-se com outras etnias, geralmente ia buscar às colónias vizinhas como ao Patacão, às Barreiras, à Palhota, ou às Caneiras a companheira para o resto da sua vida. O seu casamento era discreto, embora fossem convidados os familiares das colónias próximas. Não fosse a vinda à igreja ou ao civil o casamento passaria despercebido para a população, ainda assim a boda durava três dias durante os quais se comia quase só carne desquitando-se assim da alimentação diária à base de peixe e verdes. Na boda comia-se sopa de grão ou então canja, faziam-se fartos guisados de galinha e carneiro, todos os pratos eram bem regados, o povo avieiro gosta de beber.

O «balho», que se prolongava pelos três dias, era ao som da guitarra e da gaita de beiços, cantavam-se fadinhos e lindos viras, para matar saudades da Vieira tão distante.

Na memória de alguns, ainda se pode visualizar o velhinho Porto das Moitas com as suas três barracas de madeira, pertencentes à família dos Narcisos, dos Lobos e dos Jaquetas. Visualizam-se também as suas bateiras com lindas proas e rés inclinadas ao céu como pedindo à divindade máxima que não deixem esquecer o que foi a comunidade Avieira em Azinhaga.

Agradeço assim aos representantes vivos desta comunidade única que aqui lhes chamam Cagaréus, alguns deles verdadeiras preciosidades da cultura Avieira, que têm presente a memória do que viveram, e do que os seus antepassados passaram. São estes que conduzem a história, falando do passado, a relatar-nos o que era ser Avieiro.

A todos a minha enorme admiração.”

Fonte: Projecto de Candidatura da Cultura Avieira a Património Nacional – José Rufino – Abril de 2007

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